O cientista Robert Gallo é considerado um dos descobridores do vírus HIV, causador da Aids. Na última segunda-feira, ele esteve no Brasil para participar de um fórum sobre a doença. Sua passagem, apesar de curta, causou polêmica. Em entrevista à Agência de Notícias da Aids, quando perguntado sobre como as pessoas pobres deveriam ter acesso aos medicamentos para combater o vírus, Gallo exaltou-se e disse: "Poor people, my ass". Algo como: "Pessoas pobres, o cacete!"
A declaração do cientista gerou revolta entre os ativistas que lutam pela quebra da patente de remédios contra a Aids. “Com seu discurso, de que com a quebra de patentes o Abbott irá embora do Brasil, Gallo trouxe uma ameaça velada. Se isso não for um recado, não sei o que seria”, comentou Marta McBritton, presidente da organização não-governamental Barong, à Agência.
McBritton acha que Robert Gallo “subestimou a inteligência dos brasileiros quando quer que acreditemos que o Abbott vai embora do Brasil, como se fosse falir por conta da licença compulsória. Acreditar nisso seria no mínimo ingenuidade”, ironizou.
Toda a polêmica começa com a tentativa do governo brasileiro de tentar quebrar a patente do remédio Kaletra, produzido pelo laboratório Abbott e um dos componentes do coquetel anti-Aids. Gallo se posicionou de maneira contundente contra a quebra da patente. Isso fez com que os ativistas apontassem o cientista como uma espécie de porta-voz do laboratório e do governo norte-americano.
Em entrevista à Agência, o diretor do Programa Nacional de DST/Aids, Pedro Chequer, afirmou não ter se surpreendido com as afirmações de Gallo. “Não fiquei chocado porque conhecemos o que o co-descobridor do vírus da Aids, Robert Gallo, pensa e a serviço de quem ele está: do capital das multinacionais e dos produtores de medicamentos para Aids”, comentou Chequer.
O diretor ainda criticou o convite feito a Gallo pelo Ministério da Saúde. “Não podíamos estar vinculados a um evento onde estivesse o Gallo representando seu ponto de vista, que é contrário aos interesses nacionais e da saúde pública em todo o mundo”, afirmou o diretor à Agência.
“Eu tenho certeza de uma coisa: se a patente for quebrada e o Abbott se sentir tão ofendido a ponto de ir embora, o Brasil perde em longo prazo. Vocês podem ganhar em curto prazo, mas perdem lá na frente, porque se o Abbott decidir que não quer mais se envolver com medicamentos no Brasil, o que acontece na próxima epidemia?”, disse Gallo na entrevista da discórdia.
Segundo a posição de Gallo, a saída para o Brasil não é quebrar patentes e sim criar um fundo de recursos pago pela parcela mais rica do País. Com esse fundo, o governo poderia financiar o tratamento das pessoas mais pobres.
Outro ponto de seu argumento é que o Brasil não deveria ter esse tipo de privilégio, já que há pessoas pobres em todos os países do mundo. “Para que vocês vêm falar sobre as pessoas pobres para mim? Lamentar pelos pobres... Nós temos pessoas pobres também, não só o Brasil. O Haiti tem pessoas pobres, não só o Brasil. O mundo tem pessoas pobres, não só o Brasil. Você sabe do que nós estamos falando”, afirmou.
“Nos Estados Unidos, a população pobre não tem acesso à saúde e tem uma série de critérios restritivos. Lá a saúde é uma função de seguro privado e há uma série de restrições ao seguro social. Essa é a realidade que ele vive. Diferentemente do Brasil que tem um sistema de saúde pública e com uma Constituição que garante o acesso universal, independente de ser pobre ou rico”, discorda Chequer.
O presidente do Grupo de Apoio à Prevenção à Aids de São Paulo (GAPA-SP), José Carlos Veloso, também questionou a presença de Gallo no País. “Ele não sabia nada sobre o Brasil e mostrou-se ignorante no fórum”, disse Veloso que considera o cientista “mesquinho e elitista”. Para ele, Gallo está preocupado com o capitalismo e com o bem-estar das indústrias farmacêuticas, e não, com as vidas humanas.
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